Tentando aproximar a Ásia da América do Sul e vice-versa

“Diários da Floresta”, de Betty Mindlin

8 de Março de 2010
Por: Paulo Yokota | Seção: Livros e Filmes | Tags: , , , , ,

Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2006

Por mais que tenha percorrido o Brasil por todos os rincões, até os mais afastados, meus contatos diretos com os problemas indígenas foram poucos. Por incrível que pareça, ao enviar uma mensagem de condolências pelo passamento do José Mindlin, com quem convivi nos intercâmbios bilaterais com os japoneses, retomei o contato esporádico que tenho com minha colega da FEA-USP, Betty Mindlin, sua filha.

Betty é uma brilhante economista, uma inteligência privilegiada, que optou por seguir outros caminhos, o da antropologia, quando estudava em Cornell. Muitos dos seus antigos colegas não entendem a opção por ela tomada, mas tento compreendê-la, porque na sua defesa dos suruís, tivemos um contato quando eu era responsável por um programa chamado Polonoroeste, que tinha como eixo a rodovia Cuiabá-Porto Velho. Isto está registrado no seu livro “Diário da Floresta”, de forma simpática, como ela me avisou.

Neste arrojado programa, que tinha o apoio do Banco Mundial, tive alguns contatos com a também mencionada no livro, antropóloga Marietta Koch-Weser, alemã, casada com um profissional nascido no Brasil, que chegou a vice-ministro de finanças da Alemanha, e na ocasião ambos trabalhavam naquele banco. Eles foram comigo para Carajás, com o presidente Mc Namara, do World Bank. Ela confidenciou-me que entendia o Brasil como um dos países que mais se esforçavam, naquela época, para conciliar os seus projetos desenvolvimentistas com a preservação das florestas e reservas indígenas, ainda que danos terríveis tenham sido causados.

Haviam posseiros que tinham invadido a terra dos suruís, ainda não demarcadas, em Rondônia, e para resolver o impasse foi nos solicitado que fossem reassentados num projeto do INCRA, o que providenciamos imediatamente.

O detalhado livro de Betty Mindlin está elaborado na forma de um diário, baseado na rica experiência que ela teve no convívio com os suruís e outros indígenas, no difícil relacionamento com os chamados “civilizados”, que acabam sendo “bárbaros”. Alguns antropólogos são a favor de mantê-los segregados, tarefa impossível ainda que romântico. Outros propõem a sua inevitável integração, a mais cuidadosa possível, mas lamentavelmente com danos para os indígenas.

O estudo da antropologia não só nos ajuda a compreender os indígenas, mas o funcionamento de todas as organizações humanas que tendem a um padrão. Encontrei outro antropólogo brasileiro que tinha trabalhado na Amazônia, depois com os aborígenes australianos, para terminar estudando “antropologia organizacional” na London School of Economics, para trabalhar com fusões e incorporações de empresas. Os seres humanos continuam tendo comportamentos semelhantes, qualquer que seja o nível de “civilização” que tenham.

Hoje, tenho um filho que é formado em economia na FEA-USP e trabalha com antropólogos junto aos indígenas brasileiros da Amazônia, e espero que eu apreenda humildemente um pouco sobre eles, o que pode ser útil na convivência com os asiáticos, com toda a consideração pela diversidade cultural.

O livro de Betty Mindlin merece um estudo mais profundo, de todos quantos reconhecem a necessidade de convivência de seres humanos de culturas diferentes, mas todos respeitáveis.



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