Tentando aproximar a Ásia da América do Sul e vice-versa

O Problema da Indústria Brasileira

27 de Janeiro de 2014
Por: Paulo Yokota | Seção: Economia, Editoriais, Notícias | Tags: , , ,

Se existe um problema na economia brasileira que vem chamando a atenção de todos os analistas é o substancial crescimento do déficit externo da indústria brasileira. Um artigo publicado pela Marta Watanabe, publicado no Valor Econômico de hoje, mostra o assustador crescimento do déficit comercial, considerando as exportações de produtos manufaturados e sua importação, que em 2013 chegou a US$ 54 bilhões, crescendo 22,5% com relação ao ano anterior. Dois 22 setores industriais, em 15 houve uma piora do déficit, segundo informações da Funcex – Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior. No mesmo jornal, David Kupfer, um especialista que vem assessorando o BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, esclarece que a indústria não virou uma simples importadora de bens manufaturados prontos, mas aumentou uma grande parcela de matérias-primas e componentes que utiliza, só efetuando no Brasil uma parte de sua produção.

Este problema não está ocorrendo recentemente, mas agravou-se nos últimos anos, com alguns analistas chamando de desindustrialização. Ela decorre de uma política brasileira que veio dando pequena importância para a vital atividade exportadora, mantendo um câmbio relativamente valorizado bem como uma confusa estrutura tributária, ao lado da elevação do que costuma chamar-se de custo Brasil. Na política industrial, procura-se conceder maior prioridade para os produtos estratégicos como as matérias-primas e componentes, quando veio se protegendo os bens finais, mesmo que não tenham um papel de grande importância no conjunto da estrutura industrial. A relação câmbio/salário é considerada fundamental, e quando ela é negativa há uma forte tendência para a geração de déficits.

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Saldo Comercial de Produtos Manufaturados, US$ bilhões, e relação (câmbio nominal/salário nominal)

Na realidade, houve períodos em que se concedeu prioridade para a estabilização monetária, ou seja, combate à inflação esquecendo-se que a exportação era fundamental para a manutenção do desenvolvimento, com a introdução de tecnologias e produtos mais eficientes, mediante a sua importação utilizando-se as divisas geradas.

Mesmo no período em que se acreditava que a economia brasileira caminhava bem, o que tinha acontecido é que com a globalização a economia mundial tinha passado por uma fase brilhante, fazendo com que os produtos exportados pelo Brasil, notadamente matérias-primas minerais e agropecuárias, conseguissem preços bons. Também os investimentos que vieram do exterior acabavam valorizando o câmbio, que beneficiava as importações e penalizava as exportações.

As autoridades brasileiras estimularam o crescimento dos salários reais, tanto puxando o salário mínimo como o mercado promovia reajustamentos reais generosos, diante da falta de recursos humanos especializados. A relação câmbio/salário tendia a se deteriorar, desestimulando as exportações em quantidade, mas em valores ficava disfarçado, diante dos preços melhores que eram alcançados.

Nos últimos anos, o objetivo de criar uma nova classe média acelerou este processo, que na sua demanda era atendida pelos produtos importados. Ainda que se contasse com um mercado interno, os empresários contavam com poucos estímulos para produzir os bens demandados internamente, promovendo a importação de componentes e matérias-primas básicas.

A reversão destas tendências vai exigir um grande esforço que só será alcançada ao longo do tempo, pois os investimentos a serem efetuados, como nas siderurgias, petroquímica e outros produtores de matérias-primas básicas e componentes exigem um mercado em ascensão, e o tempo de maturação destes projetos são de longa duração, com o governo deixando claro aos empresários nacionais e estrangeiros as metas que estariam sendo perseguidas, inclusive com incentivos fiscais e creditícios.

Tudo isto exige, além de uma visão de longo prazo, uma política coerente no seu conjunto, incluindo os diversos aspectos que afetam as atividades exportadoras, fazendo com que os salários reais só se elevem na medida em que haja aumento da produtividade. Pesquisas que permitam também a adoção das inovações se tornam necessárias, pois o resto do mundo também continua introduzindo novas tecnologias eficientes, mais produtivas.



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