Tentando aproximar a Ásia da América do Sul e vice-versa

Especialista Americano Analisa Agricultura Chinesa

20 de Fevereiro de 2017
Por: Paulo Yokota | Seção: Editoriais e Notícias | Tags: , ,

clip_image002Mesmo com todas as dificuldades da agricultura chinesa, que chegou a sacrificar milhões com a fome na era de Mao Tsetung, é necessário se constatar que ela melhorou sensivelmente, ainda que sua importação de alimentos continue elevada. Uma nova fase agora deve procurar o aumento da produtividade, introduzindo produções em escala para o uso de novas tecnologias, o que foi anunciado em 5 de fevereiro no chamado Documento Central nº 1 daquele país.(Agricultor chinês com o milho na fazenda da vila de Gaocheng, na província de Hebei, em foto constante do artigo publicado no Nikkei Asian Review)

Eu sempre me pergunto como a China consegue importar somente a quantidade de alimentos como a atual, que mesmo não sendo pequena parece pouco significante quando comparada com o aumento do consumo nas últimas décadas em função do seu rápido desenvolvimento econômico. Com uma população de quase um bilhão e meio de habitantes, certamente incorporou mais de 700 milhões dos que se encontravam na pobreza absoluta para se tornar uma classe média e a primeira coisa que ocorre neste tipo de processo é a melhoria da alimentação, tanto em quantidade como em qualidade. Isto significa que a produção local deve ter crescido para atender parte importante deste aumento de demanda.

Numa primeira fase, a análise de Fred Galé, especialista norte-americano na agricultura chinesa, publicada no Nikkei Asian Review sugere que o aumento da produção ocorreu nos anos 1980 com o governo deixando de estabelecer os preços dos produtos rurais e os pequenos produtores ficando livres para produzirem o que desejavam nas suas pequenas propriedades. Isto provocou o aumento de sua produção e tudo indica que uma parte era entregue ao governo e outra era comercializada no mercado existente na localidade. Gerou a renda que permitiu aos produtores aumentarem seus consumos de produtos industriais com as reformas econômicas introduzidas pelo Deng Xiaping. Já registramos neste site que os japoneses que analisaram esta fase da economia chinesa chegaram à conclusão que a população chinesa era maior que a anunciada oficialmente, notadamente no meio rural, onde a fiscalização da política de filho único por casal não era eficiente, tanto que havia muitos “gêmeos” e “trigêmeos” com idades claramente diferentes.

Mas nas pequenas explorações agrícolas e redução das áreas para a agricultura pelas autoridades locais não continuaram a estimular o aumento da produtividade da agricultura chinesa. Uma parte dos pequenos agricultores só produzia o mínimo para não perderem os direitos sobre suas terras, determinando uma produção média baixa. Com a introdução de novas tecnologias voltadas para a escala, tanto com as mecanizações introduzidas como outros aperfeiçoamentos, volta-se a procurar a dimensão com a organização de cooperativas e a permissão de que os produtores com direito a pequenas explorações passem para outros estas vantagens que proporcionam subsídios, que na sua soma acabam sendo expressivos. Também existem explorações como as empresariais no Ocidente, com a permissão do “aluguel” destas áreas pelos que contam com tais direitos, que são remunerados pela operação. Volta se à presença de empresas estatais com razoáveis dimensões para a exploração rural, caminhando-se para a comercialização como o processamento agroindustrial. Ao mesmo tempo, eliminam-se os produtores que mantinham produções mínimas para manterem os seus direitos, com a possibilidade de suas transferências para tais empresas.

Espera-se que tais empresas providenciem o mínimo de infraestrutura como canais de irrigação, estradas rurais, pagando uma espécie de “dividendo” pela utilização destas pequenas áreas, atingindo-se uma escala econômica. Os pequenos produtores do passado serão induzidos a se transferirem para as atividades urbanas.

Os subsídios serão atribuídos a estas novas empresas com escala e serão estimuladas para a competição com a criação da figura de campeões nacionais. Espera-se reduzir a importância da autoridade local e estas empresas serão estimuladas à produção de sementes, além de providenciarem escolas e hospitais, transformando-os até em operadores internacionais, com explorações no exterior.

Já existem grandes organizações como a COFCO – China National Cereals, Oil and Foodstuffs além da Chongqing Grain Group e a Chemchina – China National Chemical, que são grandes organizações estatais para competirem com as multinacionais. Tudo indica que a intenção do governo brasileiro em abrir o acesso às terras rurais para os estrangeiros esteja ligada em parte a estes propósitos, o que, se já é difícil, fica mais complexo envolvendo estatais de outros países.

O fato concreto é que as autoridades chinesas, mesmo cientes das suas dificuldades, tentam formar que proporcionem nova eficiência à sua agricultura e todo o complexo que se chama agrobusiness. Mesmo não sendo uma tarefa fácil, deve-se registrar no mínimo o esforço que está se fazendo.



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