Tentando aproximar a Ásia da América do Sul e vice-versa

Brasília, a Ilha da Fantasia

18 de agosto de 2017
Por: Kazuhiro Kurita | Seção: Economia e Política, Editoriais e Notícias | Tags: , , | 4 Comentários »

clip_image002 Quando se observa com cuidado o que vem acontecendo em Brasília, nota-se que ela está distante do resto do Brasil e de sua população. As discussões das reformas políticas e econômicas em andamento não se relacionam com os interesses nacionais, mas somente com um grupo isolado na Capital.

Foto da construção do Congresso Nacional

Minha primeira visita à Brasília ocorreu nos idos de 1962, quando ela ainda não estava totalmente consolidada. Convidado para colaborar na Universidade de Brasília, que contava com Darcy Ribeiro e muitos formados por Anísio Teixeira no Rio de Janeiro, amassei barro para chegar até lá do Hotel Nacional, que já estava pronto e onde me hospedei. O Centro da nova Capital ainda era o Núcleo Bandeirantes e outros acampamentos de candangos que foram de muitas partes do Brasil para a sua construção, principalmente de Goiás e Minas Gerais. Não aceitei o amável convite depois do que vi em Brasília e continuei morando em São Paulo.

Em frente ao Hotel Nacional já existiam algumas lanchonetes e lojas. Dele era possível ter uma ampla visão de grande parte do Plano Piloto, apreciando o entardecer do Brasil Central, um privilégio raro e agradável. A primeira lição de realidade que recebi foi de uma candanga, atendente de uma lanchonete que tinha algumas mesas das quais era possível apreciar o belo panorama do que continuava sendo feito na Esplanada dos Ministérios. Vendo me deleitando com esta parte de Brasília, ela me ensinou o que tinha aprendido com sua própria e dura experiência, que ficou fortemente marcado na minha memória.

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Explanada dos Ministérios em 1960 quando foi inaugurado Brasília

Os candangos trabalhavam com entusiasmo na construção de Brasília e imaginavam que estavam levantando a sua Capital. Mas, com o tempo, verificaram que os funcionários públicos transferidos do Rio de Janeiro ocupavam os prédios e edifícios que haviam construído e eram os seus verdadeiros donos, marginalizando os candangos e o povo brasileiro. Triste realidade do que é hoje Brasília, onde vivi dois períodos, além de muitas visitas que permitiram acompanhar a sua evolução ou involução.

No meu primeiro período morando em Brasília, a visão do meu gabinete do edifício do Banco do Brasil era de um gigantesco autorama onde circulavam os veículos por vias sem semáforos de trânsito, onde os habitantes não contavam com bares para a sua convivência. Não era uma cidade para seres humanos, mais para robôs e todos procuram sair nos fins de semanas e férias, quando a cidade ficava vazia. Afirmava-se quando ocorresse uma doença, o melhor hospital era o aeroporto. Como Tancredo Neves não o utilizou, teve uma morte prematura.

No segundo período, o meu gabinete ficava no edifício da CNA – Confederação Nacional da Agricultura, com Brasília mais consolidada. Já havia problemas de trânsito e começaram a colocar os semáforos que não previam paradas no trânsito. Muitos já se conformavam que viveriam até a aposentadoria em Brasília, ainda que tivesse uma população muito estável, com muitos aventureiros procurando enriquecer mesmo com comportamentos menos morais, que foram admitidos durante a construção apressada da Capital, onde nem tudo foi legal. Apesar de ser o responsável até pelas construções das entidades onde trabalhei, sempre evitei me envolver com elas, onde imperavam os aventureiros até os que utilizavam a corrupção.

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Praça dos Três Poderes, um peso insuportável para o Brasil atual

Quando os japoneses estavam estudando as capitais de muitos países para a eventualidade de uma nova fora de Tóquio, Brasília, Washington, Canberra e outras foram estudadas. O que se chegou à conclusão era que ficando somente com atividades políticas, sem o desenvolvimento de outras funções, haveria tendência para distorções, tendo necessidade de outras, como econômicas e culturais, para provocar certo equilíbrio. Parece que Brasília sofre desta dificuldade até hoje, por não contar com atividades econômicas fora do governo e relevantes, além de outras que permitam um contato maior com a realidade.

Fica claro que a reforma política e as mudanças econômicas não estão sendo discutidas pensando no Brasil e na sua população, lamentavelmente, havendo uma urgente necessidade de que estas distorções sejam corrigidas rapidamente.

Tudo indica que nos gabinetes de ar-condicionado de Brasília, com empregos assegurados com altas remunerações, tudo esteja bem. Mas imaginar que os problemas do Brasil estão bem encaminhados com medidas emergenciais de curto prazo, parece uma ilusão que não se reproduz nas periferias das grandes metrópoles brasileiras, como nas regiões rurais que vieram sustentando o País. Principalmente agora que estão tendo retiradas as condições para continuar competindo no mundo futuro, proporcionando condições melhores de segurança, saúde, educação, pesquisa, assistência aos idosos e desfavorecidos compatíveis com recursos naturais e as capacidades de trabalho da população brasileira.

Acorda Brasília, antes que haja uma derrubada como a de Bastilha…


4 Comentários para “Brasília, a Ilha da Fantasia”

  1. Mauricio
    1  escreveu às 01:47 em 19 de agosto de 2017:

    Paulo você acha que ano que vem o governo vai dar calote na divida ?
    A situação divida\pib esta se tornando insustentável

  2. Paulo Yokota
    2  escreveu às 10:17 em 23 de agosto de 2017:

    Caro Maurício,

    Obrigado pela pergunta. Acho pouquíssimo provável, e comparando o Brasil já atinge um percentual da dívida sobre o PIB elevado, no caso da China é quase o seu dobro. Hoje temos pouco de financiamentos externos desta dívida.

    Paulo Yokota

  3. Vinicius
    3  escreveu às 13:20 em 22 de agosto de 2017:

    Você pode detalhar mais sobre esse estudo de capitais? Fiquei curioso sobre esse estudo feito pelo governo japonês.
    Acho que daqui a 100 anos a capital do Brasil será provavelmente São Paulo, é apenas um “achismo”.

  4. Paulo Yokota
    4  escreveu às 09:56 em 23 de agosto de 2017:

    Caro Vinicius,

    Obrigado pelo comentário. Em muitos países, como a utilização de uma metrópole já existente como Capital do país acaba provocando muitas atividades do próprio governo e de empresas, como autoridades locais, Estados e Municípios além de mil outras atividades, começando a gerar o que chamamos deseconomias de escala. Assim, Washington como Brasília foram criadas, entre diversos outros propósitos para serem as Capitais. No entanto, como não só o Executivo, Legislativo e o Judiciário, bem com tudo que gira em seu torno como a imprensa, acaba ficando com um circulo fechado. No caso dos Estados Unidos, por exemplo, o seu banco central FED – conta com os FEDs regionais que transmitem informações do Leste, do Oeste como de outras partes do país, para participarem da decisão no estabelecimento da política monetária. Parece saudável que ficando perto de New York haja também influências de atividades comerciais e de serviços. Deste conjunto de diferentes interesses, econômicos, políticos, culturais e outros mais pode resultar um equilíbrio razoável. Girando somente em torno da política acaba ocorrendo problemas como o que estamos assistindo em Brasília que pouco tem com o resto do país.
    Não acho que as São Paulo volte a ser um centro importante, pois as facilidades de comunicações estão reduzindo os problemas da distâncias físicas, ao mesmo tempo em que exageradas aglomerações de qualquer tipo geram muitos problemas. Na Europa predominam países com cidades de porte médio, como na Alemanha.

    Paulo Yokota


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