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Pequenos Reparos nos 110 Anos dos Japoneses no Brasil

20 de julho de 2018
Por: Paulo Yokota | Seção: Cultura, Editoriais e Notícias | Tags: , , , | 2 Comentários »

É sempre interessante ressaltar a contribuição dos imigrantes, não somente dos japoneses para a formação do Brasil atual. No entanto, existem japoneses no Japão que ainda não sabem sequer que muitos migraram para o Brasil. E que existem outros países que contam com mais japoneses e seus descendentes, como os Estados Unidos, incluindo os executivos expatriados e na Mongólia, para a qual foram enviados mais emigrantes do que para o Brasil e de onde muitos não tiveram condições de retornar para o Japão no término da Segunda Guerra Mundial, tornando-se mongóis, chineses e até russos. Milhões de imigrantes japoneses foram enviados para a Mongólia, sendo que para o Brasil vieram centenas de milhares, inclusive com a construção de uma ferrovia daquele país para o Pacífico, dentro do conceito do Eixo da Prosperidade dos japoneses.

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O Festival do Japão já se tornou tradicional na comemoração da imigração japonesa ao Brasil

Apesar da expressiva comemoração no Brasil, muitos japoneses sequer sabem que os japoneses tiveram que emigrar para este país, pois as condições de então do Japão eram difíceis. Repete-se também com insistência que é no Brasil que os japoneses e seus descendentes formam a maior comunidade fora do Japão, quando incluindo os executivos expatriados das empresas japonesas nos Estados Unidos eles são em número mais elevado. Também a emigração japonesa para a Mongólia foi mais numerosa do que para o Brasil, e, com a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, muitos destes imigrantes japoneses não tiveram condições de retornar para a sua pátria, numa operação catastrófica e muitas crianças se tornaram mongóis, chinesas e até russas, para poderem sobreviver. Recentemente, os registros russos informam sobre os destinos de muitos daqueles imigrantes japoneses, nominalmente, inclusive dos que tiveram a possibilidade de retornar para o Japão.

Existe um parlamentar eleito para a Dieta do Japão dos japoneses residentes no exterior e costuma ser sempre um que é eleito nos Estados Unidos, sem nenhuma chance para os que residem no Brasil, dado o número maior de eleitores naquele país. Lamentavelmente, estas pequenas incorreções são repetidas na imprensa, consolidando uma noção que não é totalmente correta.

Esta realidade não desmerece a importância da contribuição da imigração japonesa ao Brasil, pois também existem incorreções que levam muitos a acreditarem que imigrantes italianos, alemães e portugueses sejam os mais expressivos neste país. Na realidade, quando existia o Império Otomano, que se estendia pelas margens do Mediterrâneo, muitos que possuíam passaporte da Turquia, inclusive da Síria ou do Líbano emigraram em maior número para o Brasil.

Há que se observar também que os asiáticos, dadas as suas fisionomias que diferem muito dos ocidentais, acabavam chamando a atenção por suas diferenças. Atualmente, muitos coreanos e chineses dominam o bairro da Liberdade em São Paulo, mas são confundidos com os japoneses e seus descendentes.

Outro fenômeno positivo é que mediante casamentos, muitos brasileiros de diferentes etnias estão se miscigenando, ajudando a formar uma população realmente brasileira, demonstrando que os preconceitos raciais aqui são menores, ainda que sempre existentes. Alguns programas das televisões também procuram ressaltar somente as contribuições positivas, como da educação, quando também existem preocupações, notadamente no Japão, como o elevado número de suicídios, que merecem atenções das autoridades daquele país. Mas, no balanço geral, tudo indica que a contribuição dos imigrantes japoneses é positiva e reconhecida pela população brasileira.


2 Comentários para “Pequenos Reparos nos 110 Anos dos Japoneses no Brasil”

  1. Carlos Abreu
    1  escreveu às 18:26 em 20 de julho de 2018:

    Sr. Paulo, por favor me corrija se eu estiver errado, mas existe uma diferença entre número de imigrantes e colônia (comunidade), não? Como colônia, entendo que significa dizer uma aglomeração fechada vivendo / mantendo seus próprios costumes. Quando estudamos a língua japonesa mais profundamente, ficamos conhecendo o koronia-go, que é o japonês falado por aqueles que para cá vieram e que não sofreu influência das mudanças do Japão moderno. Mesmo lá, no museu (em kobe) de onde partiram os primeiros japoneses, eles se referem ao Brasil como colônia ‘cápsula do tempo’. Não conheço uma “colônia” japonesa semelhante nos EUA, como temos no Brasil. O senhor conhece?

  2. Paulo Yokota
    2  escreveu às 10:34 em 23 de julho de 2018:

    Caro Carlos Abreu,

    Eu pessoalmente não aprecio a expressão “colônia”, pois para mim veio da época em que havia uma metrópole, como Portugal e Brasil, além de muitos países europeus e suas colônias. Entendo que “comunidade” seja mais adequada, por incluir os imigrantes e seus descendentes, como V. sugeriu, mais aberta. No caso dos japoneses como europeus que vieram como imigrantes para o Brasil, houve uma deterioração cultural, gerando até o que V. chamou de “koronia-go”, que nem é japonês e muito menos português. Por exemplo, muitos descendentes de japoneses continuam usando uma moeda que não existe, o “miru” que seria uma adaptação do mil reis até hoje, que nem sei bem se seria um real hoje. Nos Estados Unidos, pelo que sei, por causa do isolamento de japoneses e seus descendentes durante a guerra em acampamentos que hoje estão sendo usados para acomodarem até crianças de imigrantes ilegais, foram obrigados a usarem o inglês, deixando de usar o japonês, não havendo uma mistura como no Brasil e algumas palavras adaptadas. Como chegou a haver Batalhão de nipo-americanos que foram enviados para a Europa como soldados, eles tiveram contatos com alguns pracinhas nipo-brasileiros e estranhavam que as tropas brasileiras tinham descendentes de africanos, japoneses, e muitos outros. (Está no livro “Um médico brasileiro no front” – diário de Massaki Udihara na II Guerra Mundial que ajudei a transformar num livro). Hoje, com muitos casamentos de pessoas de etnias diferentes no Brasil, mesmo com o destaque de algumas contribuições de imigrantes, acredito que esteja havendo uma maior integração, como foi possível ver no Festival do Japão deste ano. Acho que o Brasil é mais aberto que muitos outros países, a ponto de no bairro da Liberdade em São Paulo, haver hoje mais coreanos e chineses, mas continua sendo conhecido como japonês, quando o mais adequado seria asiático. Certamente muitos descendentes de japoneses do Brasil não conhecem o atual Japão, que continua também mudando, ainda que num ritmo menos acelerado do que seria desejável. Nos Estados Unidos conheci nikkeis em Havaí, na Califórnia como em Nova York, mas na sua maioria não usam o idioma japonês, mas somente o inglês.

    Paulo Yokota


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