Tentando aproximar a Ásia da América do Sul e vice-versa

Culturas Empresariais Distintas

8 de Janeiro de 2010
Por: Paulo Yokota | Seção: Empresas | Tags: , , , , , ,

Existem fortes indícios de que o intercâmbio entre as empresas asiáticas e sul-americanas vai aumentar, ainda que a prioridade daquela região seja acelerar a sua integração regional e fortalecer suas alianças na bacia do Pacífico. Além dos grandes projetos que envolvem, inclusive, o desenvolvimento tecnológico, existem outros, de pequenas e médias empresas, que acabam formando uma massa expressiva.

A recente crise mundial aumenta as prospecções que estão sendo efetuadas, na procura de oportunidades de investimentos e alternativas ao que existe atualmente. Os paises industrializados, cuja economia apresenta sinais de fadiga, têm interesse em incrementar o intercâmbio com os paises emergentes, pois isso lhes geraria novos estímulos. Eles continuam contando com o importante mercado interno, e suas capacidades econômicas, financeiras, empresariais e de geração de tecnologia. Espera-se que erros passados não sejam repetidos, permitindo arranjos reciprocamente estimulantes e convenientes. E os paises emergentes aumentariam o intercâmbio entre suas empresas.

Com a crescente globalização das atividades econômicas, há uma dinâmica evolução sobre os conhecimentos das culturas empresariais internacionais em todas as regiões. Isso vem facilitando melhores compreensões, mas as dificuldades pontuais ainda persistem e não são desprezíveis. O Ocidente nem sempre compreende o Oriente, e vice-versa.

Da experiência de algumas décadas envolvidas em muitos destes intercâmbios, entre asiáticos e sul-americanos, notamos que ocorreram mal-entendidos que poderiam ter sido evitados. Isso é em parte decorrente de culturas empresariais distintas, mesmo quando os potenciais parceiros estejam imbuídos da melhor boa vontade. Este tema amplo será aprofundado em alguns itens nas notas que se seguirão neste site, abordando algumas de suas múltiplas facetas, utilizando exemplos concretos, sempre que possível.

É evidente que as dificuldades começam com os idiomas utilizados e as maneiras de pensar. Eles são radicalmente diferentes e as complexas interpretações e traduções são, muitas vezes, subestimadas. O uso de um terceiro idioma, como o inglês, nem sempre ajuda a resolver estes problemas. Há casos em que algumas palavras são compreendidas de formas distintas nas duas regiões.

Na escrita chinesa, que é a base e influenciou fortemente a japonesa como a coreana, as palavras são expressas por ideogramas, cujo sentido é muito claro e preciso, pois está contido nas partes que os compõem. O que nem sempre acontece com o português ou o espanhol. Algo parecido acontece quando as palavras têm origem no grego ou no latim, quando a etimologia pode ajudar a esclarecer o seu preciso significado.

Um exemplo simples é a palavra cooperação (ou “cooperation” em inglês, e “cooperacion” em espanhol). Antônio Houaiss, no seu dicionário do português, inclui a interpretação inglesa que é sinônima de ajudar e colaborar. O seu uso pressupõe-se um relacionamento de desiguais, levando a subentender que há concessões dos mais para os menos desenvolvidos, dos mais poderosos para os mais frágeis. Mas na linguagem empresarial sul-americana é comum entender-se cooperar como “operar juntos”, de igual para igual. É do nosso costume não atentar demasiadamente para pequenas diferenças desta natureza.

Assim, quando se afirma “cooperação asiática-sul-americana”, deve-se entender que haverá algo como financiamentos com juros subsidiados ou prazos de carência e reembolso mais longos. O que nem sempre é o caso, principalmente no uso dos recursos privados, que dependem do que se convencionou chamar de mercado. A ajuda só é possível quando envolvem agências oficiais que contam com recursos orçamentários para atuarem com o chamado ODA – Oversea Development Assistance, ou recursos assistenciais de país para país. Estes casos são mais raros e dependem de entendimentos de governo para governo.

Os asiáticos costumam ser mais precisos e racionais por causa dos ideogramas que utilizam, os quais acabam moldando também as suas culturas. Os sul-americanos costumam se satisfazer com o sentido geral das decisões, ainda que elas sejam mais vagas, acabando por permitir muitas interpretações. Um dos corolários destas atitudes distintas é que os sul-americanos se queixam que os asiáticos, principalmente os japoneses, demoram a se decidir. E os japoneses reclamam que os sul-americanos nem sempre executam o que foi combinado. Já os coreanos são mais pragmáticos, enquanto os chineses possuem a clara consciência do seu poder, decorrente da dimensão do seu país e do crescimento da sua economia.

O uso de um bom intérprete, que pode ser custoso, ajuda a reduzir muitos problemas posteriores, devendo-se evitar os que só compreendem o básico dos diferentes idiomas. O contexto cultural em que as palavras são colocadas é muito importante, e o bom intérprete deve pensar como a outra parte vai entender o que foi colocado.

Mesmo nos pequenos empreendimentos convém utilizar um advogado que entenda todos os usos e costumes de ambas as regiões, visando reduzir os riscos, pois também as legislações estão baseadas em fundamentos diferentes. Os asiáticos não utilizam intensamente os serviços destes profissionais, ao contrário dos norte-americanos, e estão ainda muito imbuídos do confucionismo. Os asiáticos, apesar de possuírem uma longa tradição de subcontratos, pouco utilizam serviços de consultores externos de qualquer especialidade, mesmo quando seus funcionários não possuem o domínio completo da cultura empresarial dos sul-americanos, por exemplo.

Espera-se que as notas deste site ajudem a compreender parte dos problemas que serão enfrentados quando sul-americanos e asiáticos tentarem intensificar os seus relacionamentos.



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