Tentando aproximar a Ásia da América do Sul e vice-versa

Terraços Agrícolas do Vale Sagrado dos Incas no Peru

15 de junho de 2012
Por: Naomi Doy | Seção: Cultura, Depoimentos | Tags: , , , , , , , | 4 Comentários »

Povos que habitavam (e habitam) altas regiões de ares rarefeitos e clima inóspito desenvolveram técnicas de sobrevivência que constituem exemplos para a humanidade hoje perdida entre progressos da ciência e da tecnologia. Terraços agrícolas nas encostas de altas montanhas da Ásia ensinam um modo de viver comungado com a natureza – na Indonésia, Vietnã, Filipinas, e a Sudoeste da China, na região de Yunan, nas fraldas do Himalaia (Love and respect: Hani in tune with nature – China Daily, e Os terraços de arrozais de Honghe Hani da China – Asiacomentada, 11/junho/2012).

Outra civilização mítica cultivou vida superior calcada na comunhão da terra e do céu, preservando a natureza sagrada, a Mãe Terra – Pachamama - que lhe dava sustento. Das civilizações mais avançadas da América do Sul, com refinados conhecimentos em astronomia, engenharia e agricultura, os incas criaram um dos maiores impérios pré-colombianos, que, desde o Peru, dominaram terras hoje pertencentes à Bolívia, Chile, Equador e Colômbia. Embora Machu Picchu seja a joia dessa civilização, para bem entender suas construções, seus templos, crenças e conhecimentos, há que visitar outras cidades e vilarejos ao longo do Vale Sagrado dos Incas. Os incas acreditavam que o vale do Rio Vilcanota (formado pelas corredeiras e riachos provenientes das geleiras dos Andes) era a representação do céu na terra, seu percurso formando par perfeito com a Via Láctea. Por todo o vale ruínas contam a história de um povo que vivia em harmonia com a natureza, aproveitando a fertilidade do solo, abundancia de água e clima propício. Construíram as andenes, terraços horizontais amalgamados por contenções de pedras, nas encostas das montanhas, para melhor aproveitar espaços. Eram tão eficientes que, se outros povos passavam fome, os andinos produziam e estocavam com fartura.

2697679929_257d74c66dDSCN4892 copymoraympl_8otru

O Vale Sagrado compreende o caminho do rio entre Cusco e Machu Picchu. Situado a uma altitude média de 2.800 metros, o rio acompanha os peregrinos e vai mudando de nome: passando Cusco, é Urubamba, depois Ucayali, se junta ao Rio Marañon na altura de Iquitos, atravessa a fronteira com o Brasil, recebe o nome de Rio Solimões, e é como Rio Amazonas que desemboca no Atlântico. Os gigantescos terraços dominam a paisagem até onde a vista possa alcançar, plataformas horizontais se adaptando às sinuosidades da topografia. Ali se cultivavam mais de 200 espécies de produtos agrícolas – os principais sendo espécies de batatas e milhos, aliás muito cultivados ainda hoje.

Eles possuíam o domínio de técnicas avançadas de transporte e cortes precisos de imensas rochas que podem ser vistas já em Cusco, nas bases das construções que restaram lá, antiga capital do Império Inca. Técnicas até hoje imersas em mistério e presentes nas colossais edificações de fortalezas militares, altares de rituais religiosos, teatros, campos para jogos olímpicos, termas e banhos, silos – em cidadelas como Sacsayhuaman, Ollantaytambo, Tambomachay, Kenko. São muros e paredes de pedras maciças que podem atingir cinco metros de altura, algumas rochas com até 300 toneladas de peso, cortadas com precisão e encaixadas umas sobre outras. Em Moray, ruínas de terraços circulares lembram a forma de um coliseu; acredita-se que era um jardim para aclimatação de plantas, em viveiros onde se estudava a influência das diferenças de altitude, temperatura e clima no seu desenvolvimento. Na vizinha Maras, a 40 km de Cusco, terraços abrigam incríveis salinas, ainda funcionando: águas carregadas de minérios diversos captadas em andenes retangulares (centenas de poços de uns 5 m² cada) são evaporadas pelo calor do sol, formando camadas brancas de sal pelas encostas. É uma belíssima visão, irreal e fantasmagórica. Machu Picchu – Patrimônio Cultural da Humanidade – incrustada num morro a 500 metros acima do vale era o refúgio-residência do Inca, nome que se dava ao clã que governava o império. Mas, assim como Pisac, Machu Picchu funcionava também como observatório astronômico. Relógios solares captavam equinócios e solstícios ao longo do ano, em seus exatos momentos; eram lugares considerados sagrados, a partir de onde se podiam estabelecer claros alinhamentos entre eventos astronômicos e as montanhas circundantes.

Toda esta civilização seria dizimada, incendiada e saqueada: a partir de 1534, por exploradores vindos em nome do rei da Espanha; depois de 1911, em nome de pesquisa arqueológica. Monumentais e preciosos vestígios saqueados desses sítios em escavações nada ortodoxas estão hoje espalhados por museus de prestigiosas instituições da costa leste americana. Constantemente reivindicados pelo governo peruano, recentemente foi devolvida uma amostra ínfima em forma de peças fragmentadas. (Devolução de tesouros históricos e arqueológicos – Asiacomentada, Cultura / Depoimentos, 16/12/2010).

Como ir: a partir da cidade de Cusco, há a ferrovia turística que leva até Águas Calientes, e micro-ônibus até Machu Picchu. Há voos de helicóptero, ou ainda a caminhada de quatro dias para mochileiros, pela Trilha Inca. Porém, a melhor dica é evitar excursões coletivo-consumistas: em pequeno grupo, procurar um bom guia sênior em Cusco e fazer incursões (de van e a pé) começando pelos arredores de Cusco, e seguindo o curso do Rio Vilcanota / Urubamba. Tomar muito chá de coca e evitar esforço físico no primeiro dia para se aclimatar ao ar rarefeito e escapar ao soroche, mal da montanha (náuseas, dor de cabeça, palpitações etc.). De resto, mente e coração abertos, muita energia cósmica, um bom par de tênis e de pernas – aptos a léguas de subidas e descidas por caminhos de pedras sem fim.


4 Comentários para “Terraços Agrícolas do Vale Sagrado dos Incas no Peru”

  1. isabela
    1  escreveu às 01:49 em 12 de dezembro de 2013:

    Gostei, só que gostaria de algo mais resumido.

  2. Paulo Yokota
    2  escreveu às 04:58 em 12 de dezembro de 2013:

    Isabela,

    Estes textos são curtos. Seria interessante que V. se acostumasse com pesquisas mais detalhadas.

    Paulo Yokota

  3. francisco josé anastácio
    3  escreveu às 23:44 em 29 de março de 2014:

    Fico fascinado com essa história desde quando a conheci mais detalhadamente numa disciplina do meu curso de história(história das Américas). Quero ter a oportunidade de poder vasculha-la através dessas trilhas sugeridas, pois é uma bela história.

  4. Paulo Yokota
    4  escreveu às 11:40 em 30 de março de 2014:

    Caro Francisco José Anastácio,

    Obrigado pelo comentário. Realmente, estes esforços para superarem as limitações das disponibilidade de terras facilmente aráveis são epopeias muito interessantes, que continuam sendo efetuados até hoje.

    Paulo Yokota


Deixe aqui seu comentário

  • Seu nome (obrigatório):
  • Seu email (não será publicado) (obrigatório):
  • Seu site (se tiver):
  • Escreva seu comentário aqui: