Tentando aproximar a Ásia da América do Sul e vice-versa

Entrevistas Mais Longas Com Shinzo Abe

19 de Maio de 2013
Por: Paulo Yokota | Seção: Editoriais, Notícias, Política, webtown | Tags: , , ,

Com o destaque recente que o Japão ganhou no cenário mundial, com o início de sua recuperação econômica dentro de um quadro difícil em todas as partes do mundo bem como o envolvimento em questões internacionais, acabaram despertando uma curiosidade sobre a verdadeira personalidade do primeiro-ministro Shinzo Abe. Ele vem revelando facetas controvertidas quando observado somente pela superfície, e não obteve sucesso na sua primeira gestão (2006-2007), mesmo sendo de uma família com longa tradição política. Há um reconhecimento que sua atual política, que ficou conhecida como Abeconomics, recebe o suporte interno como externo, pois o seu sucesso adicionaria fatores positivos num contexto ainda duvidoso de recuperação da economia mundial. Mas existem problemas sérios de dificuldades com seus vizinhos, como a China e a Coreia, na disputa de ilhas nos mares próximos destes países, além das limitações internas.

A longa entrevista concedida a Jonathan Tepperman, o managing editor da importante Foreign Affairs em Tokyo, que pode ser encontrado em inglês na sua integra (www.foreignaffairs.com/print/136586) ajuda na compreensão de algumas importantes facetas e pretensões, ainda dependentes da continuidade do sucesso inicial obtido. Ele conta com a impressionante aprovação atual de 70% da população japonesa nas pesquisas de opinião. Haverá uma crucial eleição na Câmara Alta do Japão em agosto próximo, onde o governo atual pretende conseguir a maioria que já detém na Câmara Baixa, e difíceis opções precisam ser tomadas, até para suavizar as resistências internas sempre existentes.

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Primeiro-ministro japonês Shinzo Abe

A primeira pergunta do entrevistador relaciona-se com a mudança que teria ocorrido entre a primeira gestão e a atual. Shinzo Abe responde informando que não contava com uma clara prioridade na primeira gestão, e depois de ouvir a insatisfação de toda a população em muitas viagens pelo Japão, para esta gestão estabeleceu a eliminação da deflação e provocar uma mudança na recuperação da economia japonesa. Poderia se acrescentar que ele está sendo beneficiado pela saturação dos japoneses com longos períodos de estagnação da economia japonesa.

Ele informa que também passou a utilizar as redes sociais para se comunicar diretamente com a população, pois entende que nem sempre conta com a oportunidade de expressar todos os seus pontos de vistas com as escolhas dos tópicos efetuadas pelos meios de comunicação social. Foi retrucado se era o desejo de ignorar os jornalistas. Ele expressou que desejava longas entrevistas face a face, pois muitas vezes a imprensa expressa somente aspectos parciais, algumas vezes de forma errada. Esta franqueza na resposta não costuma ser comum entre os políticos, que sabem do poder de retaliação da imprensa.

A pergunta seguinte foi sobre a prioridade na agenda econômica, com estímulos fiscais expressivos, objetivos inflacionários e reformas, reconhecendo que as duas primeiras já foram iniciadas, mas qual seria a terceira. Segundo Abe, ela seria a estratégia do crescimento da economia, baseado em três conceitos chaves: desafio, abertura e inovação. Definir qual seria o Japão que desejam, tirando partido onde se destacam, como a saúde. Ele deseja usar a inovação médica para impulsionar a economia, pois constatou que nas viagens à Rússia e ao Oriente Médio identificou oportunidades. Também destacou a sustentabilidade e, para fomentar a inovação, a necessidade de manter o Japão aberto.

A pergunta se seguiu sobre o protecionismo existente no Japão. Que reformas ele pretenderia? Abe reconhece que o setor rural japonês é estratégico, mas entende que existem setores onde são competitivos com relação ao exterior, sem explicar claramente em que segmentos. Informou sobre a decisão de incorporarem no TPP – Transpacific Partnership, que afetará o protecionismo rural, que terá que mudar com relação à competição. Na realidade, parece que Abe reconhece que o setor rural, mesmo com sua importância, representa um pequeno segmento do Japão.

A nova pergunta foi sobre o endividamento japonês, diante dos estímulos programados. Abe entende que o problema só será resolvido com o crescimento da economia japonesa, pensando em objetivos de longo prazo, para 2015 e 2020. Ele entende que os gastos do governo também precisam contribuir além da elevação de alguns impostos.

Outra pergunta dura foi sobre as duas facetas, de um político nacionalista e conservador e outro de pragmático. Abe afirmou que suas declarações acabam recebendo uma visão parcial da imprensa, e ele se dispõe a colocar nos devidos lugares. Ele reconhece que houve erros passados do Japão, pelo que lamenta. Não reconhece o Japão como agressor, mas deixa isto para os historiadores.

O entrevistador pergunta sobre as visitas ao Templo Yasukuni, que irrita vizinhos, ao que Abe responde que todos os líderes podem prestar homenagens aos heróis passados, mesmo que entre eles figurem os que podem ser condenados. Refere-se à Arlington, onde confederados que eram a favor da escravidão também estão sepultados. No fundo, ele se coloca expressamente em confronto com as constantes interpretações contrárias dos chineses e coreanos, mostrando que deseja superar as dificuldades com intercâmbios econômicos crescentes, mantendo as portas abertas para entendimentos.

Perguntado sobre as disputas sobre as ilhas como Senkaku, ele reafirma a posição japonesa, afirmando que a China voltou ao assunto depois de identificadas às potencialidades das áreas marítimas próximas. Procura expressar uma posição diplomática, mas firme mesmo reconhecendo suas dificuldades. Abe vem se mostrando não fugir destes assuntos espinhosos, com declarações bastante claras.

A pergunta seguinte refere-se ao relacionamento com os Estados Unidos, incluindo propostas de reformas constitucionais. Abe se posiciona informando que o Japão veio reduzindo seus gastos militares, mas que voltou a aumentar neste ano, entendendo que o país necessita cuidar de sua segurança, incluindo uma mudança constitucional que não é fácil, mas depende das circunstâncias concretas que são colocadas.

Todas as questões colocadas na entrevista são complexas, havendo nuances importantes que vão se esclarecendo na prática. A análise detalhada de toda a entrevista é conveniente. Mas, de forma geral, Shinzo Abe revelou-se um líder que está procurando posições mais claras, ainda que algumas possam ser entendidas no exterior como não políticas ou diplomáticas. Na realidade, há diferenças de posições que precisam ser enfrentadas, sem deixar estes assuntos camuflados. O que é difícil se avaliar é se esta franqueza ajuda nos relacionamentos externos futuros, o que só poderá ser respondido pelo tempo.



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